Amparo reserva para todos seus habitantes um passado glorioso. Os personagens e fatos de outrora são muito ricos.
Atendendo um convite muito gentil da Eliana Dagmar, passo a colaborar com seu jornal eletrônico, através do livro “DIÁRIO DE UMA CIDADE CONQUISTADA”, de autoria do grande escritor, jornalista, empresário e esportista João José Jorge.
O texto do livro será transformado em uma novela que relata o dia a dia do mês de setembro de 1932, quando Amparo foi invadida pelas tropas do governo de Getúlio Vargas. O relato é de uma pessoa – João Jorge - que viveu aquele período. Em capítulos semanais, acompanhe nesta coluna a história verdadeira e emocionante que narra, segundo João Jorge, “o maior movimento cívico jamais visto no Brasil.”
Setembro 9
Novos recuos. Outras posições perdidas. Após noite de vigília e madrugada ameaçadora, surge um dia claro e ensolarado que é o reverso dos corações.
Agora o combate é aqui mesmo. A gente pode ver os soldados se movimentando no alto Dops morros. Até ontem ouvia ao ribombo dos canhões, o cacarejar das metralhadoras, mas hoje, desde a madrugada que se ouvem também o estalido seco dos tiros dos fuzis, parecendo martelos a socarem pregos em tábuas.
Estão os paulistas nas últimas posições, às portas da cidade. Um novo recuo e adeus tudo. Encarniçados são os combates. Até mesmo um soldado do Batalhão de Justiça que vivia de namoro com uma garota da vila Tafner, no largo da estação, foi forçado a largar o namorico. A moça olha para o morro da Biquinha e chora fazendo carnaval.
Crepitam incessantes os tac tac dos fuzis. Corre indiferente o dia.
Reina total confusão. Todos piram, como podem. Até mesmo de cabriolé.
A população anda se esgueirando rente às paredes. Atravessa correndo as ruas, com medo de bala perdida que de quando em quando saracoteia pelos paralelepípedos.
Vara o dia o tiroteio. Às quatro horas da tarde, numa avançada pelos flancos, os ditatoriais obrigam os paulistas a entrarem na cidade e ficam senhores das melhores posições, a cavaleiros nos últimos contrafortes. São os voluntários paulistas que tomam qualquer condução e fogem espavoridos.
Ainda restam muitos na luta. Na cidade não existe mais um soldado.
No meio desse barulho todo, surge o ronco de um avião. Olhos o procuram com avidez. Muito alto, vem com ele uma réstea de esperança.
- É paulista?
- Deve ser. Vem do lado de Bragança.
Evolui sobre o teatro da guerra. Para o motor. DEesce em pique, vertiginosamente. Pulsam amendrontados os corações. Entra de novo em funcionamento o motor, e o avião retoma vôo para ao alto, largando antes alguma coisa, que desce assobiando. E, estupecfatos, todos ouvem em seguida o medonho estrondo da primeira bomba. Bomba sobre os paulistas. Desapareceu a última réstea de esperança. Sai o povo a correr, povoam-se todas as estradas. Povoam-se de retirantes: soldados e populares espavoridos. Volta o avião. Repete a cena uma, duas, três vezes. Ribombam mais fortes as explosões. Balas em fusão, vêem morrer nos telhados e nos lagedos. Balas que procuravam o avião. Cresce de forma inenarrável a ondas de boatos.Ninguém se entende. Nenhuma voz se faz ouvir.
Caminhões retornam do front trazendo soldados fugitivos. Dizem o diabo das bombas. O povo está todo nas ruas, expressão patética, rostos crispados, sem forças para agir. Descontrole geral. O boato sufoca. Já ninguém mais sabe se ainda terá tempo pára fugir. Vai gente de um lado a outro, desorientada. Gente carregando malas, gente sobraçando embrulhos, vaga procurando saída, em meio a soldados que piram. Outros ficam mesmo para morrer. Já se sabe que a posição é insustentável. Engrossa a funilaria.
Desce a tarde e com ela fogem os derradeiros soldados. Talvez ainda restem alguns combatendo. Na cidade, mais nenhum.
Vem a noite. Esta será a pior de todas. Batem balas no calçamento. Balas passam sibilando como ferro em brasa posto na água fria. (Continua no próximo capítulo).






