Amparo reserva para todos seus habitantes um passado glorioso. Os personagens e fatos de outrora são muito ricos.
Atendendo um convite muito gentil da Eliana Dagmar, passo a colaborar com seu jornal eletrônico, através do livro “DIÁRIO DE UMA CIDADE CONQUISTADA”, de autoria do grande escritor, jornalista, empresário e esportista João José Jorge.
O texto do livro será transformado em uma novela que relata o dia a dia do mês de setembro de 1932, quando Amparo foi invadida pelas tropas do governo de Getúlio Vargas. O relato é de uma pessoa – João Jorge - que viveu aquele período. Em capítulos semanais, acompanhe nesta coluna a história verdadeira e emocionante que narra, segundo João Jorge, “o maior movimento cívico jamais visto no Brasil.”
1932 - 1 a 6 de setembro
De há muito, desde os combates em Eleutério que vem se ouvindo, de vez em quando, o estrondo longínquo dos canhões. Conforme as correntes de ar, umas vezes ouve-se distintamente, noutras percebe-se como que um estremeção, seguido de eco roufenho. A população estremece, incrédula. À noite esses roncos de destruição e morte se tornam mais nítidos. Algumas pessoas, no entretanto, obsecadas pela campanha contra o boato, confundem o ronco das bombardas com as pancadas das bolas de bocce, que se jogam pelas cercanias. Medo de passar por boateiro ou tentativa de iludir-se? Quem ouve os primeiros estrondos gaba-se. Quem não consegue ouvir, taxa os outros de boateiros. E para não passar por boateira é que muita gente boa se viu depois pilhada dentro da cidade, com a ocupação ditatorial.
Todavia a coisa ainda anda por muito longe parecendo incrível que se aproxime. Há ainda o véu da fantasia envolvendo tudo.
Eleutério! Nome fabuloso nestes dias. Nome distante a recordar heroísmos, parece cidade de lenda. Simples estação jogada nos confins do Estado formidando, avulta agora, toma na imaginação de todos foros de grandeza, É procurada com avidez nos mapas. Ali o trem blindado foi o esteio da resistência. Os capacetes de aço, a eficiência dos nossos aviões, a tenacidade dos nossos voluntários, a perfeição das nossas trincheiras passaram a ser cantados e glorificados.
Ninguém ainda duvida da vitória.
Pouco a pouco os roncos de Eleutério vão se aproximando. Nessas alturas as tropas paulistas que seguiam sempre para Socorro, passam a seguir rumos diferentes. Vão ocupar outras posições, na direção da estrada de Serra Negra.
Chegam notícias de escaramuças entre patrulhas avançadas. Mas os comunicados oficiais continuam a rezar: “tudo calmo”. Acontece que os roncos, cada vez mais perto, afirmam o contrário.
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Já se sabe que Eleutério foi ultrapassada. Falam em ciladas. Falam em traições. Barão de Ataliba foi evacuada por nossas tropas. Cabe a vez de Itapira render-se . Por fim, a maior, a mais estuporante nova: Mogi Mirim, onde postava-se o grosso da tropa, foi evacuada sem um tiro sequer.
Em algum lugar precisa-se organizar a resistência.
Assombrados, todos ficaram sabendo da invasão do nosso município pela audácia das patrulhas avançadas do inimigo. Mesmo assim há gente que não crê.
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Chegam trens apinhados de soldados. Os oficiais sondam os arredores.
Começa a pesquisa no alto dos morros. Dizem que é para a abertura de trincheiras. Um avião, o primeiro vermelhinho, sobrevoou a cidade cerca de duas horas. Faz um trabalho de pesquisa. Segue na direção de Eleutério. Volta depois pelo lado oposto e prossegue numa ronda sobre a cidade. Daqui de baixo, milhares de olhos o perseguem perscrutadores. As ruas estão apinhadas de povo e soldados. Novos contingentes vão chegando. Quem chega faz acompanhamento aos outros. Vira a cabeça para cima e gira os olhos acompanhando o avião que revolutea, espetado na ponta de milhares de lanças que são todos os olhares.
A certa altura, todos viram cair algo do avião. Cai próximo ao Colégio das Freiras. Foram os óculos do aviador, com a inscrição: Rubi. Depois ele solta milhares de impressos. São boletins do general Jorge Pinheiro. Aconselham a população a não abandonar a cidade que em breve seria tomada, como já o haviam sido Mococa, São João da Boa Vista, Pinhal, Mogi-Mirim, Itapira. E terminam esses boletins com a frase: “Reine a paz por onde a guerra já passou”.
Uns riem e fazem troça. Outros se enchem de receio.
- Qual o quê. Isso é boato...
- Pode ser. Você viu como vem vindo soldados para cá?
Era fato. Novos trens e novas tropas. Os sapadores improvisados já estão abrindo sulcos no alto dos morros. Saem caminhões conduzindo paisanos e soldados, enxadas e picaretas. Em pouco, sulcos vermelhos de terra escavada começam a contornar a cidade inteira. Abrem-se bocas rubras de terra nova. São as trincheiras.
Serpeando, estendem-se elas em desordenada sarabanda pelo tope dos morros.
Estão prontas para abrigar os paulistas soldados. É quando se desenha nítida a possibilidade antes incrível de um ataque a Amparo. Estrugem ao longo, porém cada vez mais perto, os canhões. Em um único dia, de manhã até ao escurecer, toda a gente percebeu em cada descarga de tiro que eles vinham vindo. Esse dia foi o 6 de Setembro. A noite avançou e os rumores aumentaram.





