
Valquíria Gesqui Malagoli
Escritora e poetisa, presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Jundiaí
E-mail: vmalagoli@uol.com.br
Site: http://www.valquiriamalagoli.com.br
Blog: vmalagoli.blog.uol.com.br
Foto Blog: http://reval.nafoto.net
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A arte de escrever
21/02/2012 -
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Por decreto governamental, em 1960, 25 de julho foi definido
como Dia Nacional do Escritor. O trabalho daquele que escreve, porém, está
inevitavelmente atrelado ao leitor, e, por conseguinte, ao hábito de ler.
Motivados, assim, façamos uma leitura deste quadro...
Ora, conforme informação proveniente do levantamento
denominado Retratos da Leitura no Brasil, realizado pelo Instituto
Pró-Livro, em 2008, três em cada quatro brasileiros não frequentam
bibliotecas. É inegável que o desinteresse por elas, muitas vezes, deve-se à
falta de estrutura das mesmas.
Se, por um lado, de acordo com o Ministério da Cultura,
existe pelo menos uma biblioteca pública em 90% dos municípios brasileiros,
isto é contestado pelo Conselho Federal, que, por sua vez, afirma que, em
alguns casos, a precariedade de tais espaços é tanta que nem se pode
chamá-los de bibliotecas.
Desestímulos, aliás, não faltam, haja vista, ainda conforme
o estudo supracitado, 8% dos brasileiros – cerca de 15 milhões de pessoas! –
sequer ter livros em casa.
Já a Câmara Brasileira do Livro informa que, no Brasil,
apenas cerca de 26 milhões de pessoas são leitores ativos (aqueles que leem
pelo menos três livros por ano), entre mais de 189 milhões.
Mas, quem é esta figura que sobrevive, literalmente, de
criar sempre novas obras para que este ciclo vicioso vital, a relação
homem/livro, continue?
O francês Roland Barthes (1915-1980), formado em Literatura
Clássica e Filologia pela Sorbonne, e considerado um dos mais importantes
críticos literários, destacou, neste cenário, não apenas um, e sim, dois
personagens: o écrivant, que é o escrevente, e o écrivain, o escritor.
Objetivamente, o primeiro preocupa-se, sobretudo, com o
conteúdo, ou seja, a ideia e a transmissão da mensagem, e o faz sem maiores
delongas, não se atendo, portanto, à forma. Noutro extremo, o segundo, o
escritor, encontra no ato de escrever a causa de sua existência. Para esta
criatura, o objeto de sua criação é o reflexo de sua paixão; ele trata
palavras e ideias como uma só realidade literária, vindo-lhe desta fusão,
expressões vibrantes várias, com as quais busca à custa de estilo próprio e
aprimoramento constante dialogar com quem o lê.
Para Barthes “ler é desejar a obra, é pretender ser a obra”; “o prazer do
texto” reside no fato do autor não poder prever a leitura que cada pessoa
fará do que ele escreveu.
Por exemplo, no contundente prefácio de sua obra intitulada
O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde nos possibilita um interessante
exercício metalinguístico. Autor e texto se misturam e vão se traduzindo,
quando um procura através do outro dizer suas verdades, inclusive, ao ouvido
da crítica que, à época, lhe fora bastante dura.
Ao falar do pintor, Wilde, subliminarmente, chama de artista, também o
manipulador da palavra, o escritor, bem como, o leitor, seja da pintura,
seja da escrita... Nosso olhar, nossa interpretação do que nos cerca, nossa
postura, tudo, enfim, que se apresenta, externamente, nada mais é que um
retrato interior, uma autobiografia... Como não lembrar, aqui, a partir de
algo visto por alguns como devasso, de outros escritos: “a boca fala daquilo
que está cheio o coração”?
Vamos ao prefácio, ou a trechos dele: “O artista é o criador de coisas
belas. Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte. O crítico
é aquele que pode traduzir de um modo diferente ou por um novo processo, a
sua impressão das coisas belas. A mais elevada, como a mais baixa das formas
de crítica é uma espécie de autobiografia. Os que encontram significações
feias em coisas belas são corruptos sem serem encantadores. Isto é um
defeito. Os que encontram belas significações em coisas belas são cultos.
Para estes há esperança” (...) “Um livro não é, de modo algum, moral ou
imoral. Os livros são bem ou mal escritos”. (...) “A vida moral do homem faz
parte do tema para o artista, mas a moralidade da arte consiste no uso
perfeito de um meio imperfeito”.
É como se diz – e bem se escreveu – “para o bom
entendedor...”.
como Dia Nacional do Escritor. O trabalho daquele que escreve, porém, está
inevitavelmente atrelado ao leitor, e, por conseguinte, ao hábito de ler.
Motivados, assim, façamos uma leitura deste quadro...
Ora, conforme informação proveniente do levantamento
denominado Retratos da Leitura no Brasil, realizado pelo Instituto
Pró-Livro, em 2008, três em cada quatro brasileiros não frequentam
bibliotecas. É inegável que o desinteresse por elas, muitas vezes, deve-se à
falta de estrutura das mesmas.
Se, por um lado, de acordo com o Ministério da Cultura,
existe pelo menos uma biblioteca pública em 90% dos municípios brasileiros,
isto é contestado pelo Conselho Federal, que, por sua vez, afirma que, em
alguns casos, a precariedade de tais espaços é tanta que nem se pode
chamá-los de bibliotecas.
Desestímulos, aliás, não faltam, haja vista, ainda conforme
o estudo supracitado, 8% dos brasileiros – cerca de 15 milhões de pessoas! –
sequer ter livros em casa.
Já a Câmara Brasileira do Livro informa que, no Brasil,
apenas cerca de 26 milhões de pessoas são leitores ativos (aqueles que leem
pelo menos três livros por ano), entre mais de 189 milhões.
Mas, quem é esta figura que sobrevive, literalmente, de
criar sempre novas obras para que este ciclo vicioso vital, a relação
homem/livro, continue?
O francês Roland Barthes (1915-1980), formado em Literatura
Clássica e Filologia pela Sorbonne, e considerado um dos mais importantes
críticos literários, destacou, neste cenário, não apenas um, e sim, dois
personagens: o écrivant, que é o escrevente, e o écrivain, o escritor.
Objetivamente, o primeiro preocupa-se, sobretudo, com o
conteúdo, ou seja, a ideia e a transmissão da mensagem, e o faz sem maiores
delongas, não se atendo, portanto, à forma. Noutro extremo, o segundo, o
escritor, encontra no ato de escrever a causa de sua existência. Para esta
criatura, o objeto de sua criação é o reflexo de sua paixão; ele trata
palavras e ideias como uma só realidade literária, vindo-lhe desta fusão,
expressões vibrantes várias, com as quais busca à custa de estilo próprio e
aprimoramento constante dialogar com quem o lê.
Para Barthes “ler é desejar a obra, é pretender ser a obra”; “o prazer do
texto” reside no fato do autor não poder prever a leitura que cada pessoa
fará do que ele escreveu.
Por exemplo, no contundente prefácio de sua obra intitulada
O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde nos possibilita um interessante
exercício metalinguístico. Autor e texto se misturam e vão se traduzindo,
quando um procura através do outro dizer suas verdades, inclusive, ao ouvido
da crítica que, à época, lhe fora bastante dura.
Ao falar do pintor, Wilde, subliminarmente, chama de artista, também o
manipulador da palavra, o escritor, bem como, o leitor, seja da pintura,
seja da escrita... Nosso olhar, nossa interpretação do que nos cerca, nossa
postura, tudo, enfim, que se apresenta, externamente, nada mais é que um
retrato interior, uma autobiografia... Como não lembrar, aqui, a partir de
algo visto por alguns como devasso, de outros escritos: “a boca fala daquilo
que está cheio o coração”?
Vamos ao prefácio, ou a trechos dele: “O artista é o criador de coisas
belas. Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte. O crítico
é aquele que pode traduzir de um modo diferente ou por um novo processo, a
sua impressão das coisas belas. A mais elevada, como a mais baixa das formas
de crítica é uma espécie de autobiografia. Os que encontram significações
feias em coisas belas são corruptos sem serem encantadores. Isto é um
defeito. Os que encontram belas significações em coisas belas são cultos.
Para estes há esperança” (...) “Um livro não é, de modo algum, moral ou
imoral. Os livros são bem ou mal escritos”. (...) “A vida moral do homem faz
parte do tema para o artista, mas a moralidade da arte consiste no uso
perfeito de um meio imperfeito”.
É como se diz – e bem se escreveu – “para o bom
entendedor...”.
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