
Valquíria Gesqui Malagoli
Escritora e poetisa, presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Jundiaí
E-mail: vmalagoli@uol.com.br
Site: http://www.valquiriamalagoli.com.br
Blog: vmalagoli.blog.uol.com.br
Foto Blog: http://reval.nafoto.net
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De lá para cá
27/12/2011 -
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Recentes eventos fizeram-me recordar de quando morei numa
casa com vista para o nosso patrimônio natural, a Serra do Japi, mais
especificamente para o trecho onde, hoje, localiza-se uma faculdade e um
conjunto residencial.
Aliás, saí de lá há pouquíssimo tempo, mas, meu coração
dá-me convincentes demonstrações de que jamais me esquecerei daquele lugar,
sobretudo do feliz período de minha infância em que, junto de meus amigos e
vizinhos, eu passeava por aquele paraíso próximo...
Eram passeios regulares. Aconteciam, praticamente, todos os
finais de semana, pelos quais eu, é lógico, aguardava sempre ansiosa.
Lembro-me de espiar, dia após dia, da janela da sala, a pedra gigantesca que
mais parecia um enorme queijo prato fatiado. Não faltava nem a fatia. Ela
estava lá, à vista de quem quisesse saboreá-la com os olhos.
Somente mais tarde, mais crescida, fui compreender que o seu
formato não fora se transformando pela brusca ação de chuvas ou de um,
talvez, rato imenso que porventura habitasse aquelas bandas. Era, ao
contrário, a mão de outro animal, o homem.
Com o passar do tempo, fui me consolando pela consciência de
que os donos e funcionários de pedreiras precisam trabalhar para comer; que
Jundiaí crescia e, portanto, necessitava de mais salas de aula; que as
pessoas carecem de tetos como, por exemplo, daquelas habitações verticais
para morar.
No entanto, dentro de mim, nada arrancava uma sensação que
me irmanava a Mario Quintana, pois, se ele, outrora lamentou em versos o
corte de uma árvore que alimentava com sua seiva uma alma poeta e com flores
um olhar que o correr dos dias pavimentava... eu, chorava internamente e,
muitas vezes, de forma totalmente exteriorizada – a cântaros – por causa do
paredão que se instalava à frente do verde e acima da terra que me mantinham
abastecidos olhos e pulmões.
Ocupa especial espaço em meu álbum mental de recordações, a
tarde em que voltamos correndo, porque a chuva nos perseguia...
literalmente.
Driblando-a habilmente, chegamos secos à rua em que
morávamos, no entanto, não dispensamos a delícia de nos regozijarmos em seu
frescor, e, assim, entregamo-nos às grossas e esparsas gotas que, àquela
altura, já havíamos nos convencido, se divertiam conosco!
Eu nunca, antes, tinha visto a chuva chegar daquela maneira,
como uma criança que chega de um passeio à Serra.
Eu nunca, antes, até aquela ocasião, sequer supunha pulsar
dentro de mim essa natureza meio-planta que despertou ali para, desde então,
obrigar-me a arrastar minhas raízes aonde quer que eu vá.
Debaixo da pequena aceroleira que, mais tarde, já adulta, eu
mesma plantei para, agora, dela lembrar-me com saudade, quantos versos
escrevi! Foi bem a seus pés que enterrei a pomba que escolheu nosso quintal
para expirar. E, exatamente à sua sombra rendada compus O Segredo do Japi,
pois, como não exaltar a sagrada rotina dos tuins que, disto certos,
narravam as maravilhas da Serra aos sanhaços e pardais? Embora habituados e
conformados em ciscar em meu jardim, estes últimos, atentamente, com olhos e
ouvidos voltados para os que gritavam dos céus, atestavam o que aqueles lhes
transmitiam.
De lá para cá... muita coisa mudou. Mudei-me de lá... para
cá. Trouxe comigo raízes que me ligam a este solo, e os meus rebentos que
vão criando asas...
Continuo acreditando em tudo o que me dizem os passarinhos,
bem como não houve vez em que eu ousasse duvidar da minha mãe terra,
porque... já lhes contei... sou meio-bicho, meio-planta. Dessa natureza não
me envergonho!
Ouço, de quando em quando, o clamor de uma de minhas
parentas azaleias, estressadas com a fumaça e o burburinho dos automóveis
que transitam pelas avenidas das grandes cidades, sufocadas pela fumaça, ou
laceradas pelo tromba-tromba dos transeuntes... “Não somos daqui!”, elas
dizem.
Mas, coitadas! Como eu, infelizmente, não têm a mesma sorte.
A sorte de poder decidir sobre o próprio destino; a sorte de levantar a
saia, carregar as raízes e tomar o rumo que quiser, ou, no mais das vezes,
ao menos, estiver ao alcance.
casa com vista para o nosso patrimônio natural, a Serra do Japi, mais
especificamente para o trecho onde, hoje, localiza-se uma faculdade e um
conjunto residencial.
Aliás, saí de lá há pouquíssimo tempo, mas, meu coração
dá-me convincentes demonstrações de que jamais me esquecerei daquele lugar,
sobretudo do feliz período de minha infância em que, junto de meus amigos e
vizinhos, eu passeava por aquele paraíso próximo...
Eram passeios regulares. Aconteciam, praticamente, todos os
finais de semana, pelos quais eu, é lógico, aguardava sempre ansiosa.
Lembro-me de espiar, dia após dia, da janela da sala, a pedra gigantesca que
mais parecia um enorme queijo prato fatiado. Não faltava nem a fatia. Ela
estava lá, à vista de quem quisesse saboreá-la com os olhos.
Somente mais tarde, mais crescida, fui compreender que o seu
formato não fora se transformando pela brusca ação de chuvas ou de um,
talvez, rato imenso que porventura habitasse aquelas bandas. Era, ao
contrário, a mão de outro animal, o homem.
Com o passar do tempo, fui me consolando pela consciência de
que os donos e funcionários de pedreiras precisam trabalhar para comer; que
Jundiaí crescia e, portanto, necessitava de mais salas de aula; que as
pessoas carecem de tetos como, por exemplo, daquelas habitações verticais
para morar.
No entanto, dentro de mim, nada arrancava uma sensação que
me irmanava a Mario Quintana, pois, se ele, outrora lamentou em versos o
corte de uma árvore que alimentava com sua seiva uma alma poeta e com flores
um olhar que o correr dos dias pavimentava... eu, chorava internamente e,
muitas vezes, de forma totalmente exteriorizada – a cântaros – por causa do
paredão que se instalava à frente do verde e acima da terra que me mantinham
abastecidos olhos e pulmões.
Ocupa especial espaço em meu álbum mental de recordações, a
tarde em que voltamos correndo, porque a chuva nos perseguia...
literalmente.
Driblando-a habilmente, chegamos secos à rua em que
morávamos, no entanto, não dispensamos a delícia de nos regozijarmos em seu
frescor, e, assim, entregamo-nos às grossas e esparsas gotas que, àquela
altura, já havíamos nos convencido, se divertiam conosco!
Eu nunca, antes, tinha visto a chuva chegar daquela maneira,
como uma criança que chega de um passeio à Serra.
Eu nunca, antes, até aquela ocasião, sequer supunha pulsar
dentro de mim essa natureza meio-planta que despertou ali para, desde então,
obrigar-me a arrastar minhas raízes aonde quer que eu vá.
Debaixo da pequena aceroleira que, mais tarde, já adulta, eu
mesma plantei para, agora, dela lembrar-me com saudade, quantos versos
escrevi! Foi bem a seus pés que enterrei a pomba que escolheu nosso quintal
para expirar. E, exatamente à sua sombra rendada compus O Segredo do Japi,
pois, como não exaltar a sagrada rotina dos tuins que, disto certos,
narravam as maravilhas da Serra aos sanhaços e pardais? Embora habituados e
conformados em ciscar em meu jardim, estes últimos, atentamente, com olhos e
ouvidos voltados para os que gritavam dos céus, atestavam o que aqueles lhes
transmitiam.
De lá para cá... muita coisa mudou. Mudei-me de lá... para
cá. Trouxe comigo raízes que me ligam a este solo, e os meus rebentos que
vão criando asas...
Continuo acreditando em tudo o que me dizem os passarinhos,
bem como não houve vez em que eu ousasse duvidar da minha mãe terra,
porque... já lhes contei... sou meio-bicho, meio-planta. Dessa natureza não
me envergonho!
Ouço, de quando em quando, o clamor de uma de minhas
parentas azaleias, estressadas com a fumaça e o burburinho dos automóveis
que transitam pelas avenidas das grandes cidades, sufocadas pela fumaça, ou
laceradas pelo tromba-tromba dos transeuntes... “Não somos daqui!”, elas
dizem.
Mas, coitadas! Como eu, infelizmente, não têm a mesma sorte.
A sorte de poder decidir sobre o próprio destino; a sorte de levantar a
saia, carregar as raízes e tomar o rumo que quiser, ou, no mais das vezes,
ao menos, estiver ao alcance.
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