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Osni Machado
Osni Machado é estudante e tem 21 anos. Contatos: osni_bruno@hotmail.com | Twitter: @osnimachado
Vem pra fora!
23/07/2010 -
4 comentários - Comente este artigo
A vida nos reserva surpresas, às vezes incompreensíveis. Nos retira pessoas valiosas, amorosas, bondosas de uma forma tão bruta que ficamos sem entender o porquê. Somos merecedores de tais fatalidades? Acredito que não. Mas na busca de respostas às questões que ainda não podem ser compreendidas, encontramo-nas prontas e superficiais demais.
A morte é a barreira que nos separa, por algum tempo, das pessoas que amamos. Ela nos limita e por isso nos faz recordar a nossa condição humana. Portadora da dor, sofrimento... É preciso entendê-la como a passagem para um novo plano, junto de Deus Pai. Ela não é definitiva.
Entender é o desdobramento de toda uma capacidade especial para a escuta interior daquilo que nos é proposto. Ainda no universo latino, encontramos que o entendimento está o tempo inteiro inclinado para aquele que deseja "entrar na tenda". Eu o entendo à medida que me permito entrar em sua tenda, adentrando no interior daquilo que você me fala para deste modo compreendê-lo, amá-lo, aceitá-lo Neste sentido, neste mesmo cenário somos levados a primeiro querer "entrar na tenda", problematizar, perguntar para só então depois obedecer.
Mesmo dentro dessa tenda, ainda não conseguimos as respostas desejadas, mas aprendemos a obedecer aos acontecimentos que a vida nos reserva e a nos fortalecer, para poder continuar vivendo a partir deles.
Jesus recebe a notícia de que seu amigo estava morto, assim como muito já receberam. E Ele vai, quando chega, encontra a família toda chorosa, desconsolada, já que Lázaro havia sido sepultado, e Ele chora. Vira-se e pergunta: "Onde o colocaram?" Respondem: "Senhora já faz mais de quatro dias, não tem como você ir até lá!" E Jesus não se prende a esta regra, o tempo para Ele não é importante, pede para que aquele túmulo seja aberto. Não se prendendo às regras da morte e movido pelo amor a seu amigo, Ele fala: "Lázaro, vem pra fora!". O sepulcro não é o lugar definitivo. Vem pra fora!
Enquanto nossos olhos estiverem apenas na pedra posta sobre o sepulcro, não haverá nenhuma esperança. Os olhos na lápide causam desesperos, que tomam conta de um jeito a me cercear de outras possibilidades humanas porque lá fico fixado. Justamente o que Jesus não quer.
Essa passagem nos adéqua o tempo todo. Quantas vezes experimentamos essa dura experiência de estarmos dentro de um sepulcro [vazio, silêncio, desesperança, fim]? Mas se eu olhar ele como apenas uma ponte de transição, um lugar de passagem para me fazer chegar a outro lugar, então sim, ele fica revestido de esperanças.
O filho se foi! Só nos resta chorar e quando derramamos a primeira lágrima por aquilo que estamos sofrendo, o processo de cura já começa a acontecer em nós. A lágrima que lava por fora precisa lavar também por dentro. Temos que chorar em estado de cura, isto é; manifesto a dor que eu tenho, mas busco os recursos para me recuperar desta dor. Quem fica somente no lamento, perde a oportunidade de fazer do tempo de dor, um tempo de vida nova.
"Vânia é uma mulher que precisou enfrentar o calvário de seu filho. Gustavo, o mais velho de seus três filhos, ao sair de férias no mês de dezembro sofreu um acidente trágico e morreu no auge de seus quatorze anos. A história abalou profundamente a cidade de Terra Boa, no interior do Paraná.
A morte de uma pessoa jovem é sempre traumática, parece ferir as regras de uma vida, uma vez que a morte está ligada a idades avançadas. O desespero se abateu sobre a família, mas os desdobramentos dos fatos não foram como o da primeira história, de Maria Clara, que não soube reencontrar o significado da vida. Vânia reagiu diferente. Ao perder seu filho Gustavo, essa mulher resolveu fazer justiça com a morte tão prematura de seu filho.
Ivan Karamazov, personagem de Dostoievski diz que a morte de uma criança lhe dá ganas de devolver ao universo o bilhete de entrada, mas ele não faz. Ele continua a lutar e amar, ele continua a continuar.
Vânia mesmo sem saber atualizou em sua vida a força das palavras do personagem do grande autor russo. Ela optou por continuar lutando e amando. Sofreu muito, mas não se prendeu à pergunta infértil que nasceu logo depois da tragédia. Ao invés de pensar na forma como tudo aquilo teria acontecido, Vânia reorganizou tudo o que lhe sobrara. Fez artesanato da dor, reuniu os retalhos da vida, e assim como as mulheres que tecem colchas com restos de tecidos, colocou-se à costurar os significados que ainda tinham em mãos. Olhou para os olhos dos filhos, Tais e Alécio, descobriu neles a continuidade de sua maternidade ameaçada. Porque perder um filho é um parto às avessas, como se a morte possuísse a força de arrancar do ventre, a memória do amor um dia fecundado. Segurou firme nas mãos do marido, Antonio Carlos, descobriu nele as porções de Gustavo que ainda eram vivas e decidiu prosseguir. Era o início da ressurreição. O anúncio de que o túmulo estava vazio.
Em nada ela escondia o sofrimento. Não criou personagens, nem criou uma coragem que não tinha. Apenas confiou na certeza de que a morte de Gustavo, não poderia significar a morte da família. O sofrimento vivido, não poderia se transformar em inferno de uma vida inteira. Não permitiu que a vida sepultasse mais do que a própria morte. O único jeito de prosseguir era se ater às perguntas implantadas por esperanças. O que Vânia precisava se perguntar não era sobre as razões de seu filho ter partido tão cedo. O que ela precisa fazer era olhar-se no espelho do tempo e perguntar-se: e agora, o que do Gustavo eu tenho dentro de mim? O que desse menino restou para que eu possa recomeçar? O que eu poderia escutar dele essa hora? Mãe pare a vida e viva para chorar a minha morte ou, mãe, cuida dos meus irmãos, do meu pai e dos que você ama?
Vânia escutou a segunda, encarou a dor como motivo e não como pergunta. Projetou o seu processo de reconstrução e se recolocou na luta. Alguns anos depois do acontecimento, numa boa madrugada de conversa eu disse: Foi muito duro perder o Gustavo, não foi? E ela me respondeu: Sem dúvida, foi muito duro, mas foi também muito especial. Eu a olhei assustada, e ela continuou: Ao experimentar a dor de perder meu filho pude chegar a alguns lugares da minha alma a que nenhuma alegria havia me levado. Ao ter que sepultar meu filho, tive que descobrir coisas que estavam escondidas dentro de mim que eu jamais sabia possuir. Descobri uma força que estava resguardada e que só aquela dor poderia ter revelado.
Vânia poderia ter se prostrado diante do calvário e ali permanecido pelo tempo que quisesse. A dor que sentia era forte o suficiente para garantir o direito de justificar sua atitude, mas ela não quis. Preferiu o desafio de prosseguir, de repetir no tempo a coragem que está impressa na expressão de Pietà, a virgem que segura o filho morto nos braços. Segura com expressão de dor, mas ao mesmo tempo de serenidade, pois ela está presa na certeza da ressurreição."
(Trecho do livro "Quando o sofrimento bater à sua porta")
A morte é a barreira que nos separa, por algum tempo, das pessoas que amamos. Ela nos limita e por isso nos faz recordar a nossa condição humana. Portadora da dor, sofrimento... É preciso entendê-la como a passagem para um novo plano, junto de Deus Pai. Ela não é definitiva.
Entender é o desdobramento de toda uma capacidade especial para a escuta interior daquilo que nos é proposto. Ainda no universo latino, encontramos que o entendimento está o tempo inteiro inclinado para aquele que deseja "entrar na tenda". Eu o entendo à medida que me permito entrar em sua tenda, adentrando no interior daquilo que você me fala para deste modo compreendê-lo, amá-lo, aceitá-lo Neste sentido, neste mesmo cenário somos levados a primeiro querer "entrar na tenda", problematizar, perguntar para só então depois obedecer.
Mesmo dentro dessa tenda, ainda não conseguimos as respostas desejadas, mas aprendemos a obedecer aos acontecimentos que a vida nos reserva e a nos fortalecer, para poder continuar vivendo a partir deles.
Jesus recebe a notícia de que seu amigo estava morto, assim como muito já receberam. E Ele vai, quando chega, encontra a família toda chorosa, desconsolada, já que Lázaro havia sido sepultado, e Ele chora. Vira-se e pergunta: "Onde o colocaram?" Respondem: "Senhora já faz mais de quatro dias, não tem como você ir até lá!" E Jesus não se prende a esta regra, o tempo para Ele não é importante, pede para que aquele túmulo seja aberto. Não se prendendo às regras da morte e movido pelo amor a seu amigo, Ele fala: "Lázaro, vem pra fora!". O sepulcro não é o lugar definitivo. Vem pra fora!
Enquanto nossos olhos estiverem apenas na pedra posta sobre o sepulcro, não haverá nenhuma esperança. Os olhos na lápide causam desesperos, que tomam conta de um jeito a me cercear de outras possibilidades humanas porque lá fico fixado. Justamente o que Jesus não quer.
Essa passagem nos adéqua o tempo todo. Quantas vezes experimentamos essa dura experiência de estarmos dentro de um sepulcro [vazio, silêncio, desesperança, fim]? Mas se eu olhar ele como apenas uma ponte de transição, um lugar de passagem para me fazer chegar a outro lugar, então sim, ele fica revestido de esperanças.
O filho se foi! Só nos resta chorar e quando derramamos a primeira lágrima por aquilo que estamos sofrendo, o processo de cura já começa a acontecer em nós. A lágrima que lava por fora precisa lavar também por dentro. Temos que chorar em estado de cura, isto é; manifesto a dor que eu tenho, mas busco os recursos para me recuperar desta dor. Quem fica somente no lamento, perde a oportunidade de fazer do tempo de dor, um tempo de vida nova.
"Vânia é uma mulher que precisou enfrentar o calvário de seu filho. Gustavo, o mais velho de seus três filhos, ao sair de férias no mês de dezembro sofreu um acidente trágico e morreu no auge de seus quatorze anos. A história abalou profundamente a cidade de Terra Boa, no interior do Paraná.
A morte de uma pessoa jovem é sempre traumática, parece ferir as regras de uma vida, uma vez que a morte está ligada a idades avançadas. O desespero se abateu sobre a família, mas os desdobramentos dos fatos não foram como o da primeira história, de Maria Clara, que não soube reencontrar o significado da vida. Vânia reagiu diferente. Ao perder seu filho Gustavo, essa mulher resolveu fazer justiça com a morte tão prematura de seu filho.
Ivan Karamazov, personagem de Dostoievski diz que a morte de uma criança lhe dá ganas de devolver ao universo o bilhete de entrada, mas ele não faz. Ele continua a lutar e amar, ele continua a continuar.
Vânia mesmo sem saber atualizou em sua vida a força das palavras do personagem do grande autor russo. Ela optou por continuar lutando e amando. Sofreu muito, mas não se prendeu à pergunta infértil que nasceu logo depois da tragédia. Ao invés de pensar na forma como tudo aquilo teria acontecido, Vânia reorganizou tudo o que lhe sobrara. Fez artesanato da dor, reuniu os retalhos da vida, e assim como as mulheres que tecem colchas com restos de tecidos, colocou-se à costurar os significados que ainda tinham em mãos. Olhou para os olhos dos filhos, Tais e Alécio, descobriu neles a continuidade de sua maternidade ameaçada. Porque perder um filho é um parto às avessas, como se a morte possuísse a força de arrancar do ventre, a memória do amor um dia fecundado. Segurou firme nas mãos do marido, Antonio Carlos, descobriu nele as porções de Gustavo que ainda eram vivas e decidiu prosseguir. Era o início da ressurreição. O anúncio de que o túmulo estava vazio.
Em nada ela escondia o sofrimento. Não criou personagens, nem criou uma coragem que não tinha. Apenas confiou na certeza de que a morte de Gustavo, não poderia significar a morte da família. O sofrimento vivido, não poderia se transformar em inferno de uma vida inteira. Não permitiu que a vida sepultasse mais do que a própria morte. O único jeito de prosseguir era se ater às perguntas implantadas por esperanças. O que Vânia precisava se perguntar não era sobre as razões de seu filho ter partido tão cedo. O que ela precisa fazer era olhar-se no espelho do tempo e perguntar-se: e agora, o que do Gustavo eu tenho dentro de mim? O que desse menino restou para que eu possa recomeçar? O que eu poderia escutar dele essa hora? Mãe pare a vida e viva para chorar a minha morte ou, mãe, cuida dos meus irmãos, do meu pai e dos que você ama?
Vânia escutou a segunda, encarou a dor como motivo e não como pergunta. Projetou o seu processo de reconstrução e se recolocou na luta. Alguns anos depois do acontecimento, numa boa madrugada de conversa eu disse: Foi muito duro perder o Gustavo, não foi? E ela me respondeu: Sem dúvida, foi muito duro, mas foi também muito especial. Eu a olhei assustada, e ela continuou: Ao experimentar a dor de perder meu filho pude chegar a alguns lugares da minha alma a que nenhuma alegria havia me levado. Ao ter que sepultar meu filho, tive que descobrir coisas que estavam escondidas dentro de mim que eu jamais sabia possuir. Descobri uma força que estava resguardada e que só aquela dor poderia ter revelado.
Vânia poderia ter se prostrado diante do calvário e ali permanecido pelo tempo que quisesse. A dor que sentia era forte o suficiente para garantir o direito de justificar sua atitude, mas ela não quis. Preferiu o desafio de prosseguir, de repetir no tempo a coragem que está impressa na expressão de Pietà, a virgem que segura o filho morto nos braços. Segura com expressão de dor, mas ao mesmo tempo de serenidade, pois ela está presa na certeza da ressurreição."
(Trecho do livro "Quando o sofrimento bater à sua porta")
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Comentários enviados.
Enviado em 29/07/2010 por Natália
Lindas palavras ... amei o artigo ... Parabéns!
Bjos
Enviado em 29/07/2010 por alessandra
Lindo! Tocante...
Parabéns!
Enviado em 29/07/2010 por Rodrigo
"Ve para fora!"
Desinstala-me tal comando.
Adorei o artigo!
Abraços...
Enviado em 28/07/2010 por Paulinho
Muiito boom
!!
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