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Cristiane M. L. Beira
Mestre em Psicologia Escolar
Vice-presidente do SEPI - Serviço Espírita de Proteção à Infância
O Cisne Escravo
21/06/2010 -
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Era um lago enorme, localizado ao pé de uma montanha verde, salpicada de pedras negras. Algumas árvores coloridas em tons de rosa, davam um toque de delicadeza à paisagem. A superfície do lago parecia um imenso espelho, refletindo a luz do sol. Uma cachoeira não muito alta se aliava à brisa da meia-estação e juntas movimentavam suavemente as águas que pareciam vivas.
Num dos cantos do lago, à distância, observei um ponto negro deslizando serenamente sobre a massa dágua. Aos poucos aquele ser foi tomando forma, conforme se aproximava e, então, pude identificar um lindo cisne negro, que denotava um ar de imponência pelo movimento rápido e seguro que executava. Tive a impressão que ele estava determinado a me alcançar. Achei estranho porque os gansos e pavões que também estava por ali, fugiam de qualquer aproximação de estranhos. Isso somente não aconteceria se estivessem com ninho montado.
Deve ser isso. Provavelmente estou próxima ao ninho do cisne. Pensei que seria melhor me afastar dali e respeitar o instinto animal. Mais tarde, conversando com outras pessoas, moradores dali, descobri que o cisne não estava chocando. Ele simplesmente havia se autodenominado o proprietário do lago (não de um trecho daquele imenso lago, mas de toda sua extensão) e não permitia que ninguém se aproximasse de suas redondezas.
Fiquei por ali, observando o comportamento do cisne e me deu pena. Ora ele estava correndo atrás dos gansos que ameaçavam saciar a sede nas águas do seu lago, ora ele se zangava com o trabalhador que passava por ali, percorrendo as margens, a cavalo. O pior foi quando as crianças descobriram a neurose do cisne e decidiram transformar isso em diversão (não para o cisne, certamente). Provocavam o infeliz, correndo próximos à margem, cada um numa direção, intimidando: Vamos pegar o seu lago!. O pobre do cisne quase teve um colapso nervoso, sem saber o que fazia para defender seu tesouro. Não conseguia decidir se corria atrás de um ou de outro dos pequenos invasores.
No final do dia o cisne deveria estar esgotado, imaginei. Mesmo sabendo que cisnes não têm sentimentos, fiquei pensando na ansiedade que ele deve sentir para manter sua propriedade. Quanta aflição ao supor que alguém poderia lhe tirar seu precioso bem. Quanto tempo perdido, quando poderia estar curtindo a natureza e ficava, porém, sempre por perto de seu tesouro, com medo que o roubassem, caso se afastasse dali.
Não é esse o sentimento que temos com relação aos bens materiais que possuímos? Tornamo-nos escravos deles. O cisne era escravo do lago. Perdemos a naturalidade e a tranquilidade, para garantirmos nossos tesouros.
Conta-se que Sócrates gostava de visitar o centro comercial de Atenas, onde as pessoas se reuniam para adquirir objetos cobiçados. A maior atração do filósofo grego ao mercado era a satisfação de poder transitar por ali e dizer: Veja quantas coisas existem e das quais eu não tenho necessidade.
Será que vale a pena? Nesse momento estou aqui, de frente para o lago. O sol está se pondo e eu vejo o casal de cisnes negros deslizando solitários e quase perdidos na imensidão do lago. Do lado de fora, os gansos gritam, como se reivindicassem seus direitos. Os dominadores parecem não se importar. Estão aproveitando sua propriedade. Instintivamente eles acham que todo o esforço vale a pena, senão assim não agiriam.
E nós, que pela evolução estamos deixando para trás os comportamentos instintivos, substituindo-os por decisões racionais, será que concordamos com o cisne, escravo do lago? Seria essa uma escravidão que vale a pena?
Num dos cantos do lago, à distância, observei um ponto negro deslizando serenamente sobre a massa dágua. Aos poucos aquele ser foi tomando forma, conforme se aproximava e, então, pude identificar um lindo cisne negro, que denotava um ar de imponência pelo movimento rápido e seguro que executava. Tive a impressão que ele estava determinado a me alcançar. Achei estranho porque os gansos e pavões que também estava por ali, fugiam de qualquer aproximação de estranhos. Isso somente não aconteceria se estivessem com ninho montado.
Deve ser isso. Provavelmente estou próxima ao ninho do cisne. Pensei que seria melhor me afastar dali e respeitar o instinto animal. Mais tarde, conversando com outras pessoas, moradores dali, descobri que o cisne não estava chocando. Ele simplesmente havia se autodenominado o proprietário do lago (não de um trecho daquele imenso lago, mas de toda sua extensão) e não permitia que ninguém se aproximasse de suas redondezas.
Fiquei por ali, observando o comportamento do cisne e me deu pena. Ora ele estava correndo atrás dos gansos que ameaçavam saciar a sede nas águas do seu lago, ora ele se zangava com o trabalhador que passava por ali, percorrendo as margens, a cavalo. O pior foi quando as crianças descobriram a neurose do cisne e decidiram transformar isso em diversão (não para o cisne, certamente). Provocavam o infeliz, correndo próximos à margem, cada um numa direção, intimidando: Vamos pegar o seu lago!. O pobre do cisne quase teve um colapso nervoso, sem saber o que fazia para defender seu tesouro. Não conseguia decidir se corria atrás de um ou de outro dos pequenos invasores.
No final do dia o cisne deveria estar esgotado, imaginei. Mesmo sabendo que cisnes não têm sentimentos, fiquei pensando na ansiedade que ele deve sentir para manter sua propriedade. Quanta aflição ao supor que alguém poderia lhe tirar seu precioso bem. Quanto tempo perdido, quando poderia estar curtindo a natureza e ficava, porém, sempre por perto de seu tesouro, com medo que o roubassem, caso se afastasse dali.
Não é esse o sentimento que temos com relação aos bens materiais que possuímos? Tornamo-nos escravos deles. O cisne era escravo do lago. Perdemos a naturalidade e a tranquilidade, para garantirmos nossos tesouros.
Conta-se que Sócrates gostava de visitar o centro comercial de Atenas, onde as pessoas se reuniam para adquirir objetos cobiçados. A maior atração do filósofo grego ao mercado era a satisfação de poder transitar por ali e dizer: Veja quantas coisas existem e das quais eu não tenho necessidade.
Será que vale a pena? Nesse momento estou aqui, de frente para o lago. O sol está se pondo e eu vejo o casal de cisnes negros deslizando solitários e quase perdidos na imensidão do lago. Do lado de fora, os gansos gritam, como se reivindicassem seus direitos. Os dominadores parecem não se importar. Estão aproveitando sua propriedade. Instintivamente eles acham que todo o esforço vale a pena, senão assim não agiriam.
E nós, que pela evolução estamos deixando para trás os comportamentos instintivos, substituindo-os por decisões racionais, será que concordamos com o cisne, escravo do lago? Seria essa uma escravidão que vale a pena?
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