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Eliana Dagmar
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Missão
21/04/2010 -
2 comentários - Comente este artigo
Minha avó paterna não era dada a grandes demonstrações de afeto. Seus gestos, sempre decididos, denotavam a mulher prática que era. Aprendeu a enfrentar com coragem todos os desafios. Creio que essa bravura tenha lhe custado a economia dos afagos.
Criatura simples, Maria era seu nome. Filha de imigrantes italianos chegados ao Brasil no final do século XIX, minha avó escreveu sua história de maneira tão igual a tantas outras marias que neste solo pátrio sonharam ser felizes. Ainda jovem conheceu de perto as agruras da terra a ser cultivada. Suas histórias sempre nos remetiam ao tempo do lampião, das tulhas que abrigavam as colheitas, das intermináveis tarefas que exigiam o suor de adultos e crianças...
Enxugando as mãos no avental, sentava-se para um dedo de prosa com os netos, ainda crianças, e punha-se a relembrar os momentos difíceis que tivera de enfrentar. Casou muito jovem e teve oito filhos. Dois morreram anjinhos. Na minha inocência, eu os imaginava de asinhas muito brancas voando no céu azul! Sua interpretação de vida, hoje compreendo, era fatalista. Segundo seu entendimento, a mulher tinha um fardo muito pesado a carregar. Parcos horizontes. Destino traçado por mãos masculinas. Anseios abortados no nascedouro. Sonhos sempre abdicados em favor dos outros. Mulher de profunda fé, não se lamentava. Não havia nela lamúrias ou queixas. Sua vida foi total aceitação do papel destinado à mulher do seu tempo, sem profissão e de poucas letras, como ela dizia...
Por isso mesmo, jamais esquecerei o orgulho com que me olhou no dia em que, diploma em mãos, tornei-me professora! Abraçou aquele momento como fora uma conquista sua e de todas as mulheres que nos antecederam na trajetória chancelada por desafios, obstáculos e frustrações... É como se aquele diploma alforriasse o velho arado manejado por tantas mãos femininas, resgatando sua vivência dimensionada pelo silêncio dos oprimidos...
Minha avó foi um ser humano forte e generoso que ao redor do fogão e dos afazeres da casa cumpriu com grandiosa dignidade seu papel de mulher e mãe, assim como tantas outras que fizeram desse simples mister a razão da existência. Viveram para servir, num apostolado totalmente despido de pompas e circunstâncias.
Quando octogenária, pouco antes de concluir sua missão entre nós, numa conversa que jamais esquecerei, afirmou que tinha sido feliz... porque concluíra todas as tarefas que a vida tinha lhe destinado! Essa foi minha avó... Uma Maria que, a sua maneira, também soube dizer sim.
Criatura simples, Maria era seu nome. Filha de imigrantes italianos chegados ao Brasil no final do século XIX, minha avó escreveu sua história de maneira tão igual a tantas outras marias que neste solo pátrio sonharam ser felizes. Ainda jovem conheceu de perto as agruras da terra a ser cultivada. Suas histórias sempre nos remetiam ao tempo do lampião, das tulhas que abrigavam as colheitas, das intermináveis tarefas que exigiam o suor de adultos e crianças...
Enxugando as mãos no avental, sentava-se para um dedo de prosa com os netos, ainda crianças, e punha-se a relembrar os momentos difíceis que tivera de enfrentar. Casou muito jovem e teve oito filhos. Dois morreram anjinhos. Na minha inocência, eu os imaginava de asinhas muito brancas voando no céu azul! Sua interpretação de vida, hoje compreendo, era fatalista. Segundo seu entendimento, a mulher tinha um fardo muito pesado a carregar. Parcos horizontes. Destino traçado por mãos masculinas. Anseios abortados no nascedouro. Sonhos sempre abdicados em favor dos outros. Mulher de profunda fé, não se lamentava. Não havia nela lamúrias ou queixas. Sua vida foi total aceitação do papel destinado à mulher do seu tempo, sem profissão e de poucas letras, como ela dizia...
Por isso mesmo, jamais esquecerei o orgulho com que me olhou no dia em que, diploma em mãos, tornei-me professora! Abraçou aquele momento como fora uma conquista sua e de todas as mulheres que nos antecederam na trajetória chancelada por desafios, obstáculos e frustrações... É como se aquele diploma alforriasse o velho arado manejado por tantas mãos femininas, resgatando sua vivência dimensionada pelo silêncio dos oprimidos...
Minha avó foi um ser humano forte e generoso que ao redor do fogão e dos afazeres da casa cumpriu com grandiosa dignidade seu papel de mulher e mãe, assim como tantas outras que fizeram desse simples mister a razão da existência. Viveram para servir, num apostolado totalmente despido de pompas e circunstâncias.
Quando octogenária, pouco antes de concluir sua missão entre nós, numa conversa que jamais esquecerei, afirmou que tinha sido feliz... porque concluíra todas as tarefas que a vida tinha lhe destinado! Essa foi minha avó... Uma Maria que, a sua maneira, também soube dizer sim.
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Comentários enviados.
Enviado em 04/05/2010 por Renata - Jaguariuna
Estava presente à palestra do Gabriel Chalita, em Pedreira, em que ele falou um poema seu. E agora, lendo sua crônica, constato que sua poesia extravasa em seus textos, nas imagens que percorre, levando o leitor nessa viagem. Gostei muito dessa crônica em que você fala de sua avó com tanta ternura.
Enviado em 24/04/2010 por Julia Heimann
Olá Eliana, li e adorei o seu artigo onde aborda a vida de sua avó paterna, mãe do meu saudoso amigo Francisco Luzia. Você escreveu tão bonito que eu retratei também a minha avó materna, devem ter vivido na mesma época pois as colocações são bem parecidas.
Um abraço e parabéns! Você dignifica a mulher de hoje!
Julia Heimann
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